Sa Wala é uma HQ (você pode chamar de Graphic Novel, se quiser, mas eu vou chamar de quadrinhos) que conta a história de uma família, filipina composta por uma casal (Anding e Inday) e seus três filhos de idades diversas. A família de Anding, que é taxista, vive a triste realidade de ter o dinheiro contado para passar o mês, sempre com a ameaça de passarem aperto financeiro futuro e o trabalho e os estudos são vistos com muita necessidade e seriedade. Até que um dia, Anding acha um galo no meio da estrada, bastante forte e corpulento. Pelo fato de as rinhas de galos serem culturais e legalizadas nas Filipinas, Anding resolve levá-lo para casa com a intenção de ganhar dinheiro com as brigas e, apesar de avisada sobre a função do galo, a filha mais nova (de uns 7 anos de idade), instantaneamente se apega à ave como um animal de estimação, que retribui o apego à menina. Mas, no momento que o galo adentra a casa, a família já percebe algo... diferenciado. O galo tem um olhar penetrante. Na primeira rinha em que é levado, o galo ganha a briga de lavada, sem a menor possibilidade de vitória para o adversário. Uma verdadeira carnificina, difícil de assistir, até mesmo para quem ganhava dinheiro com aquilo.
Com o bolso cheio de dinheiro e um gosto agridoce na boca, Anding volta para casa com o galo campeão. E o ciclo se repete: Anding leva o galo para as rinhas, ganha muito dinheiro com suas vitórias, se assusta com o desempenho sanguinário do pet de sua filha e finge se esquecer disso quando vê o quão traquila financeiramente ficou a sua família. Porém, as coisas estranhas que começam a acontecer ao seu redor se tornam impossíveis de ignorar e a certeza de que aquele galo não é normal só cresce. Com o relacionamento do galo e sua filha mais nova ficando muito próximo, os pais começam a temer pela segurança da criança e precisam tomar uma decisão: ficar com o galo, correndo perigo constante, ou doar/vender/matar a galinha dos ovos de ouro de família e voltar ao estado financeiro anterior, de vender almoço para comprar a janta?
Olha, eu não sou uma pessoa de quadrinhos. Não por não gostar, mais por não ter muita intimidade com esse mundo mesmo, o que acaba deixando-os por último na minha lista de prioridades. Todos os quadrinhos que eu li foram presentes do meu pai (inclusive, Daytripper é uma das minhas obras favoritas da vida), mas, definitivamente, não é o tipo de leitura que eu busco por conta própria. Também tenho a impressão de que eu leio HQs de forma errada (existe isso?), pois eu preciso me segurar muito para não ler tudo numa toada só. Eu juro que tento prestar atenção nos mínimos detalhes dos desenhos, das expressões dos personagens, mas sempre me sinto injustiçando os artistas, pois a leitura não passa de 3 dias.
Dito isso, os desenhos são fenomenais e conseguem passar com fidelidade a tensão que se desenvolvia ai na trama. A história é ótima e diferente de tudo que eu já li. Casou bem com a minha proposta recente de ler escritores fora do eixo EUA-Europa e ler mais latinoamericanos. Ué, mas a Filipinas não fica na Ásia? Fica, mas todos sabem que eles são nossos filiprimos. E, apesar de a premissa do livro ser diferente de tudo que eu já li, muito dos cenários, das dinâmicas sociais e da dura realidade da família que é retratada lembram nosso Brasilzão. Gostei!





