O Homem Bicentenário é um clássico da ficção científica. Não sou um estudioso da humanidade, então peguem leve especialistas.
Tenho conhecimento da obra de Asimov, mais pela repercussão nas artes do que pela leitura de fato. Conhecia a história antes do filme e mesmo assim não sabia a fundo como ela ocorria em suas páginas. Devo dizer que esperava que fosse mais profunda do que o filme.
Não o é, mas isso também não diminui o livro, pelo contrário. Acho que valoriza o fato de termos uma leitura rápida, uma história que entrega de forma objetiva sua proposta, sem aprofundar com grandes tecnicalidades. Tudo o que esperamos que esteja presente, no final, está.
O Homem Bicentenário é um conto em que o importante é questionarmos o que é ser um humano, o que nos faz sermos essa espécie e ao mesmo tempo nos questiona sobre até que ponto a mudança física pode nos afastar ou nos aproximar.
A história toda é sobre um robô criado-mordomo-dama de companhia. O típico robô que faz tudo em casa. Na história, ele é um dos primeiros, uma linha em testes e cai numa família, digamos, diferente...
A família em si não espera muito desse robô. Com duas garotas pequenas, o robô passa a maior parte do tempo como babá. O apreço e o carinho das crianças com o robô e a forma despretensiosa com que os pais das garotas o tratam são o terreno perfeito para o desenvolvimento ou falha na programação. Até um nome eles o dão, Andrew.
O fato é que Andrew passa a desenvolver alguma personalidade e características únicas, o interesse em atividades não previstas na sua programação. Essas atitudes são incentivadas pelo dono, que fica curioso até onde pode ir esse desenvolvimento, aliás a família toda apoia as ações de Andrew.
Andrew vai se desenvolvendo como indivíduo, crescem os elementos que passam a torná-lo ainda mais único entre os seus e ele vai construindo o desejo de ser mais parecido com seus criadores. Nesse momento, se a história fosse criada nos dias atuais, eu diria que poderíamos migrar para um grande filme de terror. Não é o caso e me passa uma sensação de como tínhamos uma visão mais positiva antes.
É curioso que em algum momento Andrew deseja sua liberdade e mais interessante como seu dono se sente ao ouvir tal pedido. Afinal, porque ele precisa disso se já é tratado como um membro da família? Essa pega forte, né... Mesmo que inicialmente a contragosto, o patriarca colabora com Andrew e vemos que ele realmente deseja o melhor ao humanoide.
A cada busca por se tornar um indivíduo, um ser humano, Andrew deve enfrentar a burocracia, as leis e a sociedade e aí que eu acho que o livro se apresenta a velocidade em que indiquei.
Temos por objetivo final, entregar ao Andrew sua humanidade, isso fica claro já na metade do livro. O que vamos presenciar é o percurso que ele deve enfrentar e as dificuldades que os humanos vão colocar no seu caminho. Mas para a história, nenhuma dessas dificuldades será um grande impeditivo, não serão situações que se arrastarão por páginas e páginas.
O importante para o conto é mostrar que o percurso existe, ele tem espinhos e que direitos conquistados podem não ser definitivos.
Eu estava lendo o livro durante mais um momento em que sentimos que direitos podem ser tomados dos seres humanos que outros podem considerar inferiores. E aí pouco importa se somos 100% orgânicos ou não, quem vai decidir por isso?
A história termina com Andrew sendo considerado um ser humano, mas porque ele pode morrer. É curioso que o que fez aquela sociedade aceitá-lo, não foi ele ser bom, amável e ter contribuído positivamente para o desenvolvimento na saúde de milhares de pessoas. Foi o fato dele não ser imortal, ser um ser finito.
Uma passagem me fez vir começar a escrever este texto antes mesmo de ter terminado a leitura, para não esquecer:
Se as pessoas lembrarem, será contra o senhor. Dirão que fez isso apenas por si mesmo. Dirão que foi parte de uma campanha para robotizar os seres humanos ou para humanizar os robôs, e, em ambos os casos, tratarão como uma iniciativa maldosa e perversa. O senhor nunca foi alvo de uma campanha de ódio político, Sr. Martin, e posso lhe afirmar que seria objeto de um tipo de difamação a que nem o senhor nem eu daríamos crédito, mas haveria pessoas que acreditariam em tudo, Sr. Martin.Campanhas de ódio fazem pessoas acreditarem em tudo e ninguém está a salvo disso.







